Consciência... e empatia!



"A minha música não é contra os brancos. Eu nunca poderia cantar isso. A minha música é contra o sistema, que ensina você a viver e a morrer."


(Bob Marley)





A música é, definitivamente, a força motriz da minha vida. É o que me estimula a seguir em frente diante do caos. Foi o que me deu voz para expressar os meus mais profundos sentimentos, os mais complexos pensamentos. Foi o que me fez ser ouvido no meio do ruído daqueles que queriam me calar por ser diferente.


Reconheço que é uma missão muito difícil despertar consciência no próximo através da música. Se eu estivesse usando uma música nesse momento, seria bem mais fácil. A música tem o poder de fazer com que as pessoas compreendam a essência do outro, construindo assim pontes que podem ser indestrutíveis com o passar do tempo. É a empatia, que tanto precisamos despertar em nós nesse momento.


Então, tenha a consciência que a música negra entregou o rock and roll, que você pode até não gostar, mas mudou o mundo de forma definitiva. Com o rock, passamos a expressar nossas paixões intensas, nossa revolta contra o sistema e celebramos gênios da música que, através das guitarras distorcidas, equalizaram corações e mentes em um sentimento comum: a busca pelo novo.


A raiz da música urbana contemporânea foi entregue por nós. Blues, Funk, R&B, Hip-Hop, Rap... a música negra é a trilha sonora das grandes cidades, dando um ritmo frenético para um povo que não pode parar. Se hoje você tem mais ritmo e swing, foi porque um dia você viu um de nós dançando nas discotecas, e achou isso o máximo.


O Brasil é o país do samba. Essa é a nossa maior contribuição cultural para o mundo, e isso só foi possível porque meus ancestrais decidiram tocar os seus tambores e atabaques em grupos, executando um ritmo animado e envolvente que alcançou todas as esferas sociais. Todos os povos do mundo conhecem o nosso país e o nosso povo por causa de um estilo musical que só nós, brasileiros, conseguimos fazer tão bem.


Por causa do samba, veio a bossa nova, o samba rock, o pagode, o axé e tantos outros estilos musicais que fizeram o brasileiro dançar, cantar e se expressar. O povo brasileiro é um pouco menos sofrido e um pouco mais feliz por causa da musicalidade negra.


De novo: você pode não gostar de metade dos estilos musicais mencionados nesse artigo, mas não pode negar os fatos. Você precisa ter a consciência que a música negra moldou a cultura de massa global nos últimos 150 anos. Coincidentemente, o tempo em que o povo negro se tornou livre nas maiores democracias do mundo.


Vou confessar que foi muito difícil escrever este artigo. Tive que recomeçar várias e várias vezes, para acertar o tom dessa conversa. E ainda acho que muita gente não vai entender o que eu quero dizer.


Mas... sendo o mais direto possível...


Tudo o que eu quero e sempre vou querer é despertar em você alguma coisa boa com a minha música. Sempre vou cantar para você porque a minha música é uma das coisas mais sagradas da minha personalidade. Despertar em você a consciência sobre a importância em sermos diferentes, e que você possa ter a empatia em perceber na minha voz a beleza dessas diferenças. Eu sempre vou acreditar que você estará disposto a me ouvir por ser quem eu sou. Por ser como eu sou. Mesmo sendo diferente.


Minha voz sempre estará pronta para cantar para aqueles que querem ouvir as minhas histórias e as histórias do meu povo, da minha raça. Que você possa perceber a beleza da minha música e, com sorte, ver como é bela a minha pele negra sob o sol, e como meus lábios grossos procuram articular as palavras corretamente para você compreender melhor as minhas mensagens.


Reconheço que sou um sonhador. Desejo um futuro onde todos possam olhar uns para os outros pelos seus valores internos e tesouros culturais. Mas foram os meus sonhos que me levaram a cantar para você.


E se você chegou até o final do texto consciente que vale a pena ouvir e dar voz para a musicalidade e identidade cultural negra, eu humildemente peço:



"Permita que eu fale

Não as minhas cicatrizes

Elas são coadjuvantes.

Não... melhor... Figurantes...

Que nem deviam estar aqui

Permita que eu fale

Não as minhas cicatrizes

Tanta dor rouba a nossa voz

Sabe o que resta de nós?

Alvos passeando por aí.

Permita que eu fale

Não as minhas cicatrizes

Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência

É roubar o pouco de bom que vivi.

Por fim, permita que eu fale

Não as minhas cicatrizes

Achar que essas mazelas me definem

É o pior dos crimes

É dar o troféu para o nosso algoz

E fazer nós sumir."*


*(Trecho da canção "AmarElo", composta por DJ Juh, Emicida e Felipe Vassão)



Muito obrigado.


Por me permitir falar.

Pela consciência.

E pela empatia.

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